quinta-feira, 26 de julho de 2007

PERDA: A GRANDE DOR. QUE TAMANHO TEM SUA DOR?

Mariana MÃE

Busco a verdade, busco a liberdade, onde encontrá-las?
Sei que ambas passam por mim, mas não moram em mim.
Passam por mim, quando me debruço sobre mim mesma, a mergulhar num mundo que é meu, mas que não posso detê-lo, delimitá-lo, porque infinito, sempre transbordante, não seca, não deserta, não esvazia.
Como a dor peregrina neste infinito que sou eu?
Ela vem ao meu encontro, ou vou buscá-la numa aventura errante?
Terá materialidade no objeto da dor!
PERDER, SERÁ O PRÓPRIO OBJETO DA DOR?
O QUE PERDEMOS, QUE LUGAR OCUPA NA DOR?
O que perdemos, jamais poderá ser a dor.
Porque aquele que amamos não pode ser a dor!
O que perdemos é proximidade?
O que perdemos é o presente com vazios?
O que perdemos é o futuro como uma não possibilidade?
Será o vazio, a dor?
Há uma inadequação na perda, há um não reconhecimento do si mesmo, há um sentido de não pertencimento!
Mas precisamos destacar a questão da perda, como algo sempre presente na vida de todos.
Perdemos a incapacidade de andar, quando iniciamos nossos primeiros passos na infância;
Perdemos a primera dentição, para que dentes permanentes, que não permanecem por toda a vida, ocupem o lugar dos dentes de leite, perdidos.
Perdemos o colo, as idades anteriores, o vigor físico, psiquico, emocional.
Por fim, perdemos a vida, vivida no tempo/espaço.
A morte é um perder-se a si mesmo?
O si mesmo é o EU SOU?
O si mesmo é uma imortalidade do ser?
Percorrendo o meu pensar, o objeto da dor, seria o perder.
O ser, jamais seria a própria dor. E se assim for, por quem choro?
Só pode ser pela dor que sinto, e meu sentir dor, é ter perdido alguém.
Como algém que é a propria beleza da minha vida pode ser minha dor?
Não doi em mim meu filho
.Doi saudade, doi distância, doi tristeza, doi invisibilidade, doi eternidade ( eternidade é passado e utopia de futuro, mas nunca o presente. A eternidade inviabiliza o presente e faz do passado, o presente congelado, engessado, por não existir processos).
E aí, qual o tamanho da dor?
Quando se perde um ente querido, é lugar comum, ouvir-se " palavras de consolo", pretensamente aplicadas para "alivio da dor", colocando na balança das emoções, do atingido pela dor, a sua perda, em relação à outras perdas, como de tamanho inferior a do outro, julgando que assim, traga o consolo necessário.
Que compaixão, que solidariedade é esta que pode dar consolo e alivio, pelo tamanho da miséria alheia!
Que remédio é este que se toma e se sente aliviado e consolado em detrimento do sofrimento alheio?
Quem sabe o tamanho da dor?
Qual a medida da dor?
Não sei se é religiosamente correto, dizer do mau estar que me causa, escutar tamanha contradição!
Como posso me sentir bem, sentir algum alivio na minha dor se o outro sofre mais que eu? Que medida é esta!
Permanentemente refletindo sobre esta questão, me parece corretamente humano dizer, que a dor é infinita, que a dor ocupa o tamanho de cada universo humano, de cada individualidade e ao mesmo tempo, transborda!
A minha e a sua dor são as dores do humano, dentro da suportabilidade do humano, é privativa e intransferivel na sua individualidade, e coletivamente simbólica no tamanho.
O tamanho da dor, tem medida no simbolismo coletivo, mas nunca na individulidade do sofrimento.
Se a dor do sofrimento humano tem tamanhos diferenciados, há privilegiados!
Será que ainda na dor eu quero mais vantagem que o outro?
Até nos males físicos, há uma similaridade de sintomas (mazelas, dores), nas enfermidades. Essas similaridades geram possibilidades de diagnósticos e de curas. (marianabbcerqueira)

5 comentários:

Maria Guidah Almeida disse...

Mariana cada vez que leio qualquer coisa que você escreve fico a me perguntar, até onde essa mulher vai aguentar? Eu não quero ser invasiva como já lhe falei em outro fórum, mas a pergunta que não quer calar é a seguinte - Como é o cotidiano de uma pessoa que carrega dentro de si uma dor tão grande? Como se consegue conciliar trabalho, filhos, sociedade, com a gestação dessa dor que não tem fim? Uma pessoa que passa por dor tão intensa leva uma vida normal? Ainda sabe sorrir? Quanto a esse item acho que eu mesma respondo, sorrir é preciso, mesmo com as entranhas dilaceradas pela dor, pois o sorriso acredito eu, é parte integrante do corpo físico, e se assim não acontece, com certeza perderemos a vida. É impossível se viver por muito tempo sem sorrir.
E os filhos? Cobram a mãe inteira que lhes é de direito, ou entendem, e calados vão seguindo a vida, conformados com essa nova mãe que a vida lhes ofereceu?
Como será, meus Deus, viver presa às amarras de uma dor que ao que me parece nunca terá fim?
É possível carregar essa dor lancinante, sem prejuízo à qualidade da vida tanto de quem a carrega quanto dos que precisam dessa pessoa para chegar inteiros, sem rasgões, sem costuras, sem pontos, sem chagas, que poderão sangrar e muito, por um mínimo tropeço que a vida lhes dê?
Tudo isso me questiono, e sinceramente são perguntas que não consigo tirar da minha mente.
Existe, uma normalidade ao menos aparente, de uma pessoa prenhe de dor tão imensa? Outras pessoas junto a elas não se sentem inibidas em sorrir, brincar, falar do passado, contar estórias, falar de alguma coisa que as afligem sem se sentirem egoístas?
Mariana às vezes eu quero comentar alguma coisa do nosso passado - coisas engraçadas que vivemos no nosso tempo de estudante - mas me acho egoísta tenho a impressão que estou faltando com o respeito ao seu luto.
É... Disse muito bem Clarice Lispector “É uma infâmia, morrer não se sabe quando nem onde" Mas pra mim os que se vão não sofrem, ao menos isso na minha opinião, consola um pouco os que ficam – esses sim para eles o sofrimento da perda e da saudade é verdadeiramente uma infâmia.
Um grande abraço minha amiga querida.
Margarida

Mariana MÃE disse...

Margarida, tem outro texto de minha autoria que está no portal www.homenagempostuma.com.br no menu horizontal, link "ESCRITA DA DOR". Lá você terá algumas respostas para suas indagações.
Neste tempo, estou inaugurando uma loja "PALAVRA: SABERES E ARTE". É complementar às homenagens a PEDRO HENRIQUE. Está em fase de construção, mas já está instalda.
Os produtos da loja, PALAVRA: SABERES E ARTE, são escolhidos no campo do direito; da literatura em geral; da literatura sobre a vida, o viver e o perder; da arte e do artesanato. O endereço é Rua cezar Zama, 129, Shopping Sunset Boulevard, Loja 05, Barra.
Você está convidada a aparecer por lá. Será um grande prazer encontrá-la.
A minha experiência diz, que para aqueles que entendem a vida como um privilégio, que pensam na existência do outro que continua a caminhar consigo, a dor não é incapacitante. A dor incapacitante é dor de egoista, que pensando apenas em sua dor, em si mesmo, fica cego para tudo e todos que estão ao seu redor. Não é facil, mas é possivel viver após uma tragédia humana.
Mariana, sua colega e amiga

MARINA disse...

MARIANA, HOJE, GRAÇAS A DEUS, CONSEGUÍ DEPOIS DE MUITA LUTA COM O GIGANTE DA DOR, TORNÁLO UM MÍSERO GRÃO DE AREIA QUE ÀS VEZES MACHUCA O MEU PÉ QUANDO ENTRA NO MEU SAPATO. DESVENCILHEI-ME DA GRANDE DOR QUE A CULTURA OCIDENTAL, E POR ELA A IGREJA CATÓLICA NOS FAZ ACOLHEDORES DE UMA "DOR DA PERDA" DO SER QUERIDO, QUANDO SE ESVAZIA DO SEU CORPO PERECÍVEL E PASSA A VIVER O CORPO GLORIOSO, INACESSÍVEL AOS SENTIDOS, MAS VÍVIDO NO CORAÇÃO.
PENSO EM AJUDAR ÀS PESSOAS, A SE DESVENCILHAREM DA DOR SEM NOME...A CONSTRUÍREM UMA VIDA ENCANTADA AO SER GLORIOSO QUE AMAM. SEM DOR. A DOR MASSACRA. QUE SÓ POSSAMOS SENTIR A DOR FÍSICA QUANDO A ANESTESIA OU OS ANALGÉSICOS NÃO FIZER EFEITO. TRANSFORMEMOS A DOR EM SERVIÇO.O QUE VC FAZ É UM BÁLSAMO. É UM TRABALHO QUE DEVE SER SEGUIDO, COPIADO POR NÓS.
VC ESTÁ DE PARABÉNS! DIVULGUE O MÁXIMO OS SEUS TRABALHOS. NOSSAS COMPANHEIRAS SE SENTIRÃO MELHOR VENDO O SEU EXEMPLO.PAZ E LUZ!
MARINA

Mariana MÃE disse...

Amiga Marina, estar no mundo é estar permanentemente nos ajustando à realidade que se apresenta para nós.
Diante dos desafios da vida, se tivermos a graça de permanecermos lúcidos, a dor nos impulsiona ir fundo no desvelar da realidade.Tarefa cruel!
Este nosso estigma, nos humilha, nos faz sentirmos NADA!
Nos defrontamos com as nossas insuficiências de tal modo, que pode até nos derrubar. E derruba, mesmo. Mas nos levantamos de novo e reiniciamos o processo para sobrevivência, de ser SURDO para palavras nefastas; CEGO para ações destrutivas e MUDO, silenciando o que deve ser preservado. Isto não é uma condição mágica, requer muita interiorização, reclusão para retorno ao mundo coletivo.
Temos que nos desvelar efetivamente, buscar força naquilo que temos, suprimir lacunas daquilo que não dispomos, suplementando numa rede de apoio possivel, através do que for acessivel, cada um extrair, nos acendendo individualmente com aquilo que temos e coletivamente com o que conseguirmos agregar. Temos que dispor de um sistema de MULETAS, para continuar caminhando, e de uma força maior, superior, para nos colocar em equilibrio para nos apoiarmos nas MULETAS.
Que MULETAS são essas? UNS sem escolhas, têm a terapia fármaca; outros a biblioterapia, quando conseguem voltar aos livros; outros, apoio especializado, (requer dispor de recursos financeiro); e tantos outros e mais outros, que vai se ouvindo falar.
conheço um caso de uma pessoa amiga que virou maratonista; corre, corre para encontrar, encontrar-se, ou perder-se...
Esses processos são culturais ou naturais?
Visualizando o mundo animal, vemos e entendemos a dor que faz gemeer o animal que perde sua cria.
Nós, humanos,somos seres de tamanha inteligência que o que nos
exclui, nos torna menores, contemplamos como não fosse nosso, não nos atingisse e vamos colocando no percurso da vida, para baixo do tapete da mente. E sobrevivemos, vivemos e construimos nosso mundo, repleto de representações do que nos é possivel, para continuar vivos, "felizes", etc, etc...
Só a MORTE nos traz a dimensão efetiva de realidade, ou quem sabe, pode nos remeter para sempre ao mundo do sonho, do irreal, aí irreversível, alienados para sempre...

Mariana MÃE disse...

A revista Veja, desta semana, edição 2021, (intrigante este número, 20.04.03 PEDRO se foi; 21.06.83, PEDRO chega a este planeta terra), traz à luz, consciência das trevas da "DOR DA MORTE" na entrevista das páginas amarela, com o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes,que dentre outros aspectos, falou ..."da dor de quem fica e como lidar com ela".
Pontuarei alguns aspectos do que foi falado:
..."expressar sua tristeza também é importante.
...Não há nada pior do que alguém lhe dizendo: Não quero ver você triste assim, por favor!
...elas percebem que os vizinhos e os amigos se afastam delas.
...ninguém sabe lidar direito com a morte.
...Não se deve tentar proteger as famílias escondendo dados que possam machucá-las. As informações servem para que as pessoas tenham tempo para digerir o terror e organizar suas esperanças, assim como suas hipóteses sobre a tragédia.
...momento de aflição máxima, os familiares não têm condições de resolver nada e precisam de alguém que assuma o controle da situação.
...o sentimento de ira não ajuda o enlutado a se organizar emocionalmente, nem mesmo alivia sua dor.
...ajudá-las a acreditar que eles tinham morrido.
...os homens têm uma enorme dificuldade de mostrar sua fragilidade diante da morte. Por isso, têm também mais dificuldade de se organizar para continuar vivendo.
...o que quer que você diga nessa situação deve vir do coração.
...elas tinham uma grande necessidade de procurar seus mortos.
...em vez de as obrigarmos a aceitar a informação de que as pessoas que elas amavam estavam mortas, ficamos ao lado delas, observando-as enquanto faziam a busca.
... conversavam e choravam juntas. Isso colaborou para fazer com que, aos poucs, elas fossem entendendo que as pessoas que elas procuravam não voltariam mais.
...a terapia tenta fazer com os enlutados:
AJUDÁ-LOS NÃO A ESQUECER SEUS MORTOS, MAS A ACHAR UM LUGAR PARA ELES EM SUA VIDA.
Estes aspectos pontuais, destacados na minha leitura, me fazem compreender mais objetivamente, meu percurso neste vale de lágrimas. Lágrimas derramadas ou lágrimas contidas,recolhidas ao coração, que produzem um espaço para ação, na direção de fazer/trazer, PEDRO, VIVO, no meu dia a dia, construindo um novo projeto, EM NOME DO FILHO, MEU PEDRO.
Percebo que já encontrei um lugar para PEDRO, em minha vida, de forma objetiva e especial, nos trabalhos que ora desenvolvo em sua memória, para "honra e glória do seu NOME", para o bem de outros e de todos.

Quem sou eu

Minha foto
O estigma da morte é ferro, fogo e sangue nas emoções. É o peso que se carrega, não apenas pessoal, mas coletivamente, no prcessar simbólico do que é viver e do que é morrer! É a experiência humana de finitude! É mergulho profundo nas aguas da emoção, razão, imaginação. Tudo em busca de um sentido, da fé...